O presidente Franklin Roosevelt era um mestre do ludíbrio. Pelo menos uma vez Roosevelt admitiu candidamente sua disposição em mentir para alcançar seus objetivos. Em uma conversa de 14 de maio de 1942 com o seu contíguo conselheiro judeu, o secretário do tesouro Henry Morgenthau Jr., o presidente comentou : “você sabe que eu sou um “malabarista”, e nunca deixo que minha mão direita saiba o que fez a esquerda… Eu devo possuir uma política para a Europa e uma diametralmente oposta para a América do Norte e do Sul. Eu posso ser totalmente incoerente, e ainda assim, estou perfeitamente preparado a enganar e contar mentiras, se elas forem nos ajudar a vencer a guerra.”

Roosevelt não foi o primeiro presidente americano que mentiu para o povo. Mas raramente uma figura do alto-escalão político americano fez um discurso descaradamente falso como o fez Roosevelt, em 27 de outubro de 1941, endereçado a uma grande multidão reunida em Washington, no Dia da Marinha, e transmitido ao vivo, por rádio, para todo o mundo.

Muita coisa tinha acontecido nos meses anteriores. Em 11 de março de 1941, Roosevelt promulgou o decreto Lend-Lease como lei, permitindo o incremento no fornecimento de ajuda militar para a Grã-Bretanha, em violação à neutralidade dos E.U.A. e ao Direito Internacional. Em abril, Roosevelt enviou ilegalmente tropas para ocupar a Groenlândia. Em 27 de maio, sob a alegação de que os alemães estavam determinados à “dominar o mundo”, ele proclamou um estado de “emergência nacional ilimitado”. Em seguida ao ataque do Eixo à URSS em junho, a administração Roosevelt começou a enviar enormes quantidades de ajuda militar aos soviéticos sitiados. Essas expedições marítimas também violaram de forma flagrante o Direito Internacional. Em julho, Roosevelt ilegalmente enviou tropas americanas para ocupar a Islândia. E em setembro Roosevelt anunciou uma ordem “shoot on sight” a fim de que os navios de guerra atacassem os navios alemães e italianos em alto-mar.

O presidente começou seu discurso do Dia da Marinha recordando que os submarinos alemães haviam torpedeado o destroyer americaco “Greer”, em 4 de Setembro de 1941, e o destroyer americano “Kearny’, em 17 de Outubro. Em um tom altamente emotivo, ele caracterizou estes incidentes como atos de agressão desmotivados dirigidos contra todos os americanos. Ele declarou que embora tivesse querido evitar o conflito, o tiroteio tinha começado e a “história tem registrado quem deu o primeiro tiro.” O que Roosevelt deliberadamente não mencionou foi o fato de que, em cada caso, os destroyers americanos haviam sido envolvidos em operações de ataque contra os submarinos, que dispararam em legítima defesa apenas como último recurso. Hitler pretendia evitar a guerra com os Estados Unidos, e tinha ordenado expressamente aos submarinos alemães que evitassem conflitos com os navios de guerra americanos a todo custo, exceto para impedir a destruição iminente. Apesar de as diretrizes da política de Roosevelt “shoot on sight” para os Marinha dos E.U.A. serem especificamente concebidas para criar incidentes como o que ele hipocritamente condenou como inevitável, Hitler ainda procurava evitar a guerra contra os E.U.A. Seus esforços provocativos para incitar Hitler a uma declaração de guerra contra os E.U.A haviam falhado, e a maioria dos americanos continuava a se opor a um envolvimento direto no conflito europeu.

Situação similar viveu o Brasil, empurrado à guerra em razão de interesses que não lhe diziam respeito. O livro do historiador gaúcho Sérgio Oliveira, falecido em 26 de junho de 2014“Getúlio Vargas depõe: o Brasil na Segunda Guerra Mundial”, relata os fatos que envolveram a verdadeira história sobre os afundamentos dos navios brasileiros, ataque este motivado pela análoga quebra de neutralidade por parte do governo brasileiro. – NR

E assim, em um esforço para convencer seus ouvintes de que a Alemanha era uma verdadeira ameaça para a segurança americana, Roosevelt prosseguiu no seu discurso do Navy Day com um surpreendente anúncio: “Hitler seguidamente tem declarado que seus planos de conquista não atravessam o Oceano Atlântico. Eu tenho na minha posse um mapa secreto dos idealizadores de uma Nova Ordem Mundial, feito na Alemanha pelo governo de Hitler. É um mapa da América do Sul e uma parte da América Central, em que Hitler se propõe a reorganizá-los.” Este mapa, explicou o presidente, mostrou a América do Sul, bem como “a nossa grande linha da vida, o Canal do Panamá”, dividida em cinco estados vassalos sob domínio alemão. “Esse mapa, meus amigos, torna clara a concepção nazista não apenas contra a América do Sul, bem como contra os Estados Unidos.”

Roosevelt prosseguiu revelando que ele também tinha em sua posse “um outro documento redigido na Alemanha pelo governo de Hitler. Trata-se de um plano detalhado para abolir todas as religiões – católica, protestante, islâmica, hindu, budista, judaica e demais”, o qual a Alemanha vai impor “sobre um mundo dominado, se Hitler vencer.”

“Os bens de todas as igrejas serão apreendidos pelo Reich e seus fantoches. A cruz e todos os outros símbolos religiosos deverão ser proibidos. Os sacerdotes serão eternamente silenciados sob a penalidade dos campos de concentração. No lugar das igrejas de nossa civilização será erigida uma Igreja Nazista Internacional, uma igreja que será servida por oradores enviados pelo governo nazista. E no lugar da Bíblia, as palavras do Mein Kampf serão impostas e concebidas como Escrituras Sagradas. E, no lugar da cruz de Cristo serão colocados dois símbolos: a suástica e a espada nua.”

Roosevelt enfatizou o importância das suas “revelações”, declarando: “ponderemos bem sobre estas verdades sinistras que lhes contei acerca dos planos hitleristas presentes e futuros.” Todos os americanos, disse ele, “são confrontados com a escolha entre o o tipo de mundo que queremos viver e qual o tipo de mundo que Hitler e suas hordas iriam impor sobre nós“. Assim sendo, “estamos impelidos a fazer nossa parte para a destruição do Hitlerismo.”

Em Berlin, o governo alemão reagiu imediatamente ao discurso, por meio de uma declaração em que categoricamente rejeitava as acusações de Roosevelt. Ambos os supostos documentos secretos, declarou: “são falsificações desastrosas, do tipo mais grosseiro.” Além disso, o comunicado oficial continuou: “as afirmações da conquista da América do Sul pela Alemanha e da eliminação das religiões nas igrejas em todo o mundo e sua substituição pela igreja nacional-socialista são tão sem sentido e absurdas que é supérfluo para o Governo do Reich discuti-las”. O ministro da propaganda, o alemão Joseph Goebbels, também respondeu às alegações de Roosevelt. As “acusações absurdas” do presidente americano, ele escreveu em um ensaio amplamente lido, foram uma “grande fraude” projetada para “agitar a opinião pública norte-americana.”

Na conferência de imprensa no dia seguinte ao discurso, um repórter solicitou, naturalmente, por uma cópia do “mapa secreto” ao presidente. Roosevelt recusou, insistindo apenas que ele veio “do que é, sem dúvida, uma fonte confiável.”

A história completa só veio a emergir muitos anos depois. O mapa existiu, mas foi uma falsificação produzida pela inteligência britânica, provavelmente em seu laboratório técnico no Canadá. William Stephenson (codinome: Intrepid), chefe das operações de inteligência britânica na América do Norte, passou-o para o chefe da inteligência americana William Donovan, que repassou a Roosevelt. Em um livro de memórias publicado no final de 1984, Ivar Bryce, agente britânico à época de guerra, reclamou o crédito pela elaboração do projeto do “mapa secreto”. É evidente que o outro “documento” citado por Roosevelt, destinado a delinear os planos alemães de abolição das religiões, era tão fraudulento como o “mapa secreto”.

O público americano de 1941, esmagadoramente, aceitou como verdadeiras as alegações fantasiosas e alarmistas de seu presidente. Poucos acreditavam que seu chefe-executivo pudesse estar mentindo, enquanto os “nazistas” estivessem falando a verdade.

Não seria nem um pouco surpreendente se os estadunidenses que, à época, demonstraram seu espírito crítico, por meio do ceticismo com relação a tão óbvia impostura presidencial, tenham sido tachados de “teóricos da conspiração” e, de plano, desqualificados pela “opinião pública”. – NR

Em seu discurso do Dia da Marinha, Franklin Roosevelt conseguiu alcançar, assim, o seu principal objetivo, que era assustar o público americano, de forma que o apoiassem, ou pelo menos tolerassem, sua campanha empurrar os EUA ainda mais em direção à guerra.

Mark Weber

The Journal of Historical Review, Spring 1985 (Vol. 6, No. 1), pages 125-127. Revisado em novembro de 2010 

Tradução e comentários: Antonio Caleari

Fontes:

John F. Bratzel and Leslie B. Rout, Jr., “FDR and The ‘Secret Map’,” The Wilson Quarterly (Washington, DC), New Year’s 1985, pp. 167-173.

“Ex-British Agent Says FDR’s Nazi Map Faked,” Foreign Intelligence Literary Scene (University Publications of America), December 1984, pp. 1-3.

Ted Morgan, FDR: A Biography (New York: Simon and Schuster, 1985), pp. 600-603.

James MacGregor Burns, Roosevelt: The Soldier of Freedom (New York: 1970), pp. 147-148.

“President Roosevelt’s Navy Day Address on World Affairs,” The New York Times, Oct. 28, 1941.

“The Reich Government’s Reply To Roosevelt’s Navy Day Speech,” The New York Times, Nov. 2, 1941.

Joseph Goebbels, “Kreuzverhör mit Mr. Roosevelt,” Das Reich, Nov. 30, 1941.(In English: “Mr. Roosevelt Cross-Examined”) Reprint/ Nachdruck in Das eherne Herz (1943), pp. 99-104.

Outras leituras recomendadas pelo autor do texto:

Warren F. Kimball, The Juggler: Franklin Roosevelt as Wartime Statesman (Princeton Univ. Press, 1991)

Mark Weber, “President Roosevelt’s Campaign to Incite War in Europe: The Secret Polish Documents,” The Journal of Historical Review, Summer 1983.
(http://www.ihr.org/jhr/v04/v04p135_Weber.html)

Mark Weber, “The ‘Good War’ Myth of World War Two.” May 2008.
( http://www.ihr.org/news/weber_ww2_may08.html )